Em busca da verdadeira moda – Ronaldo Fraga

Sempre a frente em suas ideias, Ronaldo Fraga começa a trilhar uma nova caminhada em busca de uma forma de entender a moda que se constrói em nosso tempo. Para tanto, decidiu “pular” o inverno 2012 do SPFW para focar em novos projetos, como o livro “Caderno de Roupas, Memórias e Croquis” que será lançado entre fevereiro e março junto com sua coleção.

O estilista pretende usar essa “folguinha no calendário”, também, para viajar e  repensar a maneira de divulgar e comercializar moda no Brasil. Em suas palavras: “Eu brinco que a moda acabou porque acredito que ela não existe mais como a conhecemos. Esse sistema comercial engessa, é angustiante e tira o brilho. Eu estou fazendo isso justamente para não perder o brilho.” Nada melhor para se fazer nesse momento, no qual a moda passa por uma mudança em seu entendimento tanto pelo criador quanto pelo consumidor.

Esse lançamento conjunto entre coleção e livro mostram um outro lado do estilista, que ele sempre exercitou, mas que nunca havia chamado tanta atenção do público como agora. O motivo de tantos olhares voltados para este acontecimento, é a falta que fará seu desfile na semana de moda mais importante do país. Mas, afinal, já não estava na hora de alguém dar um passo adiante na visão que temos do sistema de moda? Essa união entre conhecimento, cultura, tradição e moda, já não deveria acontecer de maneira mais explícita e mais frequente? Será que em todo esse tempo a moda realmente não está em constante mudança interna? Vamos preferir focar em tendências ou vamos representar uma cultura, uma sociedade,  a história que construímos?

Muitos estilistas e pessoas importantes da área discordaram de Ronaldo Fraga. Em resposta a estas, disse: “Teve quem me fizesse sentir afagado ao lamentar minha ausência. Mas também fui agredido. Algumas pessoas ficaram ofendidas por eu dizer que a moda acabou. Mas reafirmo: como nós a conhecemos, a moda acabou mesmo. Deixou de fazer sentido essa busca pela cor da estação, pelo comprimento da vez.” Só tenho como aplaudir estas palavras, o estilista deu um passo ousado e sua base para fazê-lo é sólida e coerente.

Jum Nakao também deu sua opinião: “Minha ideia foi mostrar que, mesmo se for de papel, a moda pode deixar uma mensagem. Se a moda acabou, tomara que seja na forma descartável como é feita hoje.” É o que eu também espero.

Uma das falas que mais me decepcionou foi a de Constanza Pascolato: “Acho que o que o Ronaldo quis dizer é que a moda autoral acaba porque você não pode sustentá-la sem base financeira forte. O varejo não se sustenta de coisas originais. E ele sempre foi alternativo no pensamento, valorizando as raízes brasileiras. Mas nenhuma sociedade nova, cheia de novos ricos como a nossa, quer saber de raízes.” Ela pode ter motivos para pensar dessa forma, porém acho que Ronaldo Fraga não vai deixar de fazer sua moda autoral e original e se pessoas como ele deixarem de acreditar em uma moda diferente que represente a história, que traga novidades, que seja reflexiva, não nos sobrará nada além de imitações.

Mal posso esperar para ver as ideias que Ronaldo Fraga nos trará daqui para frente, os desfiles não deixarão de existir e ele continua acreditando em sua importância, mas está mais do que na hora de sair da zona de conforto e buscar a moda além da passarela. Afinal, nosso tempo precisa isso: “O desenho de um novo tempo nos pede novas funções para roupas, corpos, móveis e imóveis” diz Ronaldo Fraga.

A carta que escreveu “Paro, logo existo”:

A moda acabou? Pelo menos da forma como a conhecíamos, acredito que sim. O desenho de um novo tempo nos pede novas funções para roupas, corpos, móveis e imóveis.

Termino este ano com um saldo de seis coleções de moda, coleções de coisas para vestir a casa, quatro exposições multimídia, direção criativa de grandes eventos, pesquisas, conversas e projetos em todo esse Brasil varonil…!

Toda essa intensidade de acontecimentos me permite agora experimentar um desejo de, depois de 17 anos desfilando regularmente duas coleções anuais, não desfilar na temporada do próximo inverno.

Parar para respirar, para observar o entorno, para investigar outros suportes para o pensar, o expor, o produzir e o comercializar moda no Brasil.

Meu tempo pede isto: a possibilidade de estabelecer diálogos mais estreitos com outras frentes, caminho que já venho trilhando.

No início de 2012, trocarei a realização de um desfile pelo lançamento de um livro, o Caderno de Roupas, Memórias e Croquis.

Em outras palavras, na próxima temporada, trocarei a passarela por uma pausa e por uma escolha pela concentração em palavras, riscos, rabiscos e desenhos. 

E as roupas, impertinentes, continuarão por lá.

Feliz Ano Novo!

Carinhosamente, 
Ronaldo Fraga

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3 thoughts on “Em busca da verdadeira moda – Ronaldo Fraga

  1. Acho que a Constanza tem razão quando diz q os novos ricos não querem saber de raizes, qrem o novo e o que todos tem. Mas ela como pessoa influente, deve tentar mudar a historia, mostrar o outro lado da moeda e não apenas se conformar com essa realidade. É ai que entra o Ronaldo Fraga e outros poucos que como ele querem fazer uma moda autoral. Querem plantar sua semente para tentar ‘mudar’ o pensamento desses novos ricos. Se todo mundo desistir de fazer algo original para fazer o que todos desejam ter, não haverá inovação e não haverá valorização e incentivo para mostrarmo o nosso potencial criativo.

  2. Pingback: Dia do Folclore – Turista Aprendiz na Terra do Grão-Pará « The Big Fashion Theory

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