Dia do Folclore – Turista Aprendiz na Terra do Grão-Pará

Ontem (22/08) foi o dia do Folclore e estava em busca de algo interessante para colocar aqui no blog, encontrei, pena que não deu para postar ontem mesmo. Apesar de já ter mais de dois meses desde o SPFW, eu ainda não tinha visto os desfiles (que estudante de moda é essa, vocês devem estar se perguntando, mas, enfim…) e pensei em ver se algum estilista tinha feito algo relacionado ao folclore.

Foi então que descobri o desfile que mais me emocionou até hoje, o Verão 2013 de Ronaldo Fraga. Não tem como discutir, ele é um dos maiores estilistas do país e um dos que mais utiliza a cultura brasileira como inspiração para suas “personagens”, como ele mesmo chama. As personagens, dessa vez, vêm do Pará e esse é apenas um dos motivos pelos quais me senti tão realizada com a coleção.

Valeu a pena não ver o estilista por uma estação e esperar que ele voltasse com tamanha riqueza e expressividade sobre o Norte do país, muitas vezes subestimado ou estereotipado. E é incrível como ele conseguiu fazer isso com tanta sensibilidade e originalidade, sem deixar as sementes, o verde e os traços indígenas de lado, mas utilizando tudo isso para criar moda, como ela deve ser.

Em sua visão não é que o Pará esteja na moda, sobre isso o estilista comenta: “Quando me dizem isso, eu respondo: ‘depende, a Gaby, por exemplo, já tem 20 anos de carreira. Nós somos um bando de ignorantes, na verdade. Ficamos aqui fechados com relação ao que acontece no Norte. E essa sempre foi a relação do Brasil com a Amazônia”.

Vocês lembram que a pausa de Ronaldo teve a ver com reencontrar a verdadeira moda? “Pensei que é urgente esse desafio do setor, que está na berlinda. O setor precisa tomar uma decisão, um posicionamento sobre um jeito de fazer moda que não cabe mais do jeito que estamos fazendo até aqui”, diz o estilista.

Esse desfile é fruto dessa busca que, para ele, não é feita nas viagens para a Europa, mas uma pesquisa que acontece em solo brasileiro, nas raízes desse povo que tem tanto a oferecer:  “A cultura paraense não se esgota e tem o oxigênio que o nosso tempo precisa. Não só o oxigênio da floresta, mas essa cultura oxigenante, com culinária e história tão sofisticada”

E é para essa terra dos superlativos, como Ronaldo a nomeia, que o estilista escreve mais uma de suas incríveis histórias:

“Ô Manuel…..

Nestas andanças por este Brasil, tenho visto e vivido coisas estupendas! Agorinha mesmo minhas retinas beberam a manhã mais linda do Rio Amazonas…..mas nada que me traz saudades hoje e que me extasia ver, me provocará um dia o desejo de rever com precisão absoluta e fatalizada o que as terras do Grão Pará já o fazem.

Quero o Pará como se quer um amor sobressaltado, como de sobressaltado de paixão esta terra tomou-me, deixando-me doente de desejo. Aqui Manuel, as pessoas sao seres marchetados em madeira de lei. Os beijos amortecem como o jambu, os corpos têm cheiro de manga e as almas….bom, as almas….carregam misterio das aguas profundas. Você como mestre da escrita, meu querido poeta, conhecerá esta , como a terra do superlativo, onde ao procurar-es o belo e o feio encontra-rás o tenebroso e o maravilhoso. Tudo cantado e encantado por uma certa Matita Pereira.

Daria todos os açaís do mundo para ve-lo enfeitiçado por este lugar. O mesmo feitiço amazônico que transforma mulher bonita em castanheira, flores em pássaros , pepitas de ouro em sementes da mata. Impossível, Manu, descrever em palavras escritas ou faladas os assombros e desassombros deste lugar. E é neste lugar do sem palavras que sua ausência o faz mais presente! Só me resta nesta embriaguez de paixão vestir o meu linho branco e depois da chuva sentar no terraço do Grande Hotel, com vista para as mangueiras que encobrem o teatro da Paz e chupitar um sorvete de cupuaçu sem pressa de mais nada…

Você que conhece o mundo , conhece coisa melhor que isso Manuel ?? Com saudade, um abraço deste turista aprendiz,

Sob licença poetica, reescrevo aqui esta carta imaginária , que possivelmente Mario de Andrade teria enviado a Manuel Bandeira, caso este tivesse conhecido Fafá de Belém, Dira Paes, Paulo Chaves, Dona Onete ,Mestre Verequete e Mestre Catiá, Lino Villaventura e André Lima, as meninas de Tucumã, e escutado as operas de Waldemar Henrique ou se jogado em uma aparelhagem com Gaby Amarantos.”

Fotos: FFW

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