Boggie, afinal, quem é perfeito?

Eu poderia escrever um ou dois parágrafos sobre o vídeo da cantora húngara Boggie, que tomou conta das redes sociais e blogs por todo o mundo, mostrando como as imagens podem ser modificadas e criticando o exagero do uso dessas ferramentas, além de nos fazer pensar sobre nossa percepção de beleza. Se você só queria mesmo um ou dois parágrafos, posso passar alguns links de sites que gosto: Futuro do Presente e Petiscos. Mas acredito que a discussão pode ser maior, então, eu vou me atrever a escrever um pouquinho mais.

Enquanto sua imagem vai sendo modificada de uma forma surpreendente, a cantora cita várias marcas de luxo, de Chanel a Paco Rabanne, passando por Yves Saint Laurent, Burberry, Valentino, Thierry Mugler, entre muitas outras. O nome da música é “Nouveau Parfum” (Novo perfume) e possui na letra e no clipe uma crítica à indústria de cosméticos e da beleza. Mas essa crítica pode ser estendida para a indústria da Moda como um todo, já que a maior parte das marcas citadas começaram sua caminhada com o vestuário. E é também nas passarelas e campanhas de moda que vemos modelos extremamente magras num exagero de “perfeição” (como a entendemos hoje) inalcançável, um mundo onde não existem celulites, estrias, aquele pneuzinho nem mesmo rugas.

diane-keaton1-580x951Diane Keaton no Globo de Oure (12/01/2014) e na propaganda da L’Oréal lançada um pouco antes da premiação.

E é nesse entendimento idealizado do que é belo que estamos perdendo valores muito mais importantes. A Moda deveria ser uma forma de expressão, uma maneira das pessoas se sentirem bem consigo mesmas e mostrarem isso para o mundo, ao invés disso, é uma porta que se abre para a anorexia, para mil cirurgias plásticas, para os cuidados exagerados com o exterior e nunca com o interior, para um consumismo desmedido e irracional e muitos comportamentos que só visam a superficialidade das pessoas.

Quando Rick Owens coloca modelos com corpos completamente diferentes para dançar em sua passarela e isso vira o foco de uma das semanas de moda mais importantes do mundo, é por que as pessoas estão percebendo o problema e querem mudar, mas na outra temporada todo mundo esquece a lição e voltamos para a padronização de sempre. O mesmo acontece quando a Pro Infirmis cria manequins baseados nos corpos de deficientes físicos e os coloca nas vitrine das lojas de Zurique com uma campanha que se chama “Because who is perfect? Get closer” (“Porque quem é perfeito? Chegue mais perto”).

E quando a Boggie se questiona, na música, sobre “Qual escolho? Porque escolho? Quem quer que eu escolha?” ela fala sobre todo o trabalho midiático que dita para as pessoas as marcas que devem escolher, o que devem vestir, como devem ser, sem que isso seja uma imposição. Afinal, ninguém te obriga a comprar determinada marca, mas diariamente somos induzidos por propagandas como a da L’Oréal, que transformam a pele da bela Diane Keaton em uma pele de 25 anos. E qual a finalidade disso? Que as mulheres acreditem que vão chegar aos 68 anos com a pele lisa só usando L’Oréal? E, sinceramente, qual o problema de chegar aos 68 como a Diane Keaton? Ela é linda! Eu prefiro ter rugas do que não conseguir mexer os lábios para me expressar depois de tantas cirurgias plásticas!

Enquanto não formos magras como a Gisele, enquanto não formos lindas como a Megan Fox, enquanto não tivermos a pele dos sonhos mesmo depois dos 60, vamos continuar nos depreciando, nos sentindo inferiores e deixando os padrões de beleza nos escravizarem e nos deixarem infelizes? E isso tudo gera um ciclo vicioso, você compra para se sentir melhor, quando percebe que você não virou a Isabeli Fontana por usar o shampoo da propaganda, você fica infeliz e vai comprar  a marca que aquela atriz famosa usou na novela, mas você continua olhando para as mesmas revistas com os mesmos quilos e quilos de photoshop e se achando muito inferior a todas essas mulheres. O psiquiatra Flávio Gikovate fala sobre como o consumismo é fruto de desespero, falta de amor, veja essa reportagem aqui.

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Sim, a moda é feita de sonhos e desejos, mas que eles sejam positivos, se não podem virar pesadelos. Se você for capaz de escolher uma peça que tenha tudo a ver com você, que conte um pouco da sua história ou do seu momento atual e que expresse sua individualidade você estará definindo o seu estilo e não vai precisar engolir pílulas de novidades fashionistas (leia a matéria do Trend Coffee) que te transformam cada dia igual a um blogueiro diferente com seus looks do dia previsíveis. E isso sim é moda.

Só quando nós, consumidores, passarmos a não aceitar certos padrões desnecessários é que as grandes marcas vão começar a agir de maneira diferente. A percepção de que “eu não sou um dos seus produtos“, também presente na música da húngara, significa que nós não somos padronizados, nossos códigos genéticos, nossos pensamentos, nossas atitudes, nossas experiências, tudo é diferente, então, se quisermos escolher, que a gente aprenda a escolher da maneira certa, pelos motivos certos e não por que queremos nos adaptar aos padrões da mídia que, como vimos nos exemplos, são irreais e artificiais. E que nós tenhamos acesso a mais propagandas como as da Dove, que mostram que a diferença é muito mais prazerosa e que a beleza pode estar exatamente no que não está nas capas de revistas.

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