Entrevista com o figurinista Paulo Vinícius – sobre Figurino e Moda

Paulo Vinícius é figurinista e possui um blog, o Figurino e Cena, onde descreve suas impressões e conhecimentos sobre sua profissão. Depois de me infiltrar no meio teatral percebi a importância desse profissional na composição de um espetáculo e nada mais justo que trazer suas próprias palavras para entender melhor esse universo. Não dá para falar muito, Paulo disse tudo na entrevista:

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TBFT: Você fez Artes Cênicas, não é? Você acha que uma pessoa formada em Design de Moda tem capacidade de entrar na área de figurinos teatrais? O que esse profissional deve buscar em sua formação para conseguir lidar com as exigências dos figurinos teatrais?

Paulo V: Se partirmos do princípio que um designer de Moda articula bem os elementos da linguagem visual e se ele entende sobre modelagem, corte, materiais e costura, acho totalmente possível ele tornar-se um figurinista de teatro.  A única grande diferença na formação desses dois profissionais é que um figurinista também deve entender o funcionamento da cena, célula do teatro, do trabalho de ator e das necessidades, técnicas e artísticas, do espetáculo. Essas informações só são adquiridas com a experiência teatral. O figurino está a serviço da cena e, por isso, tem outras funções além da estética e da composição dramaturgica. Em outras palavras, acredito que um designer pode tornar-se um bom figurinista se, antes disso, ele tornar-se realmente uma pessoa de teatro.

TBFT: Quais são as limitações criativas que você encontra no seu dia-a-dia como figurinista?

Paulo V: Um figurinista é um artista que sempre coloca a sua criação a serviço de algo maior que é o espetáculo, por isso ele deve estar o tempo todo disposto a ceder em função de outras necessidades, como as exigências do diretor do espetáculo, a limitação orçamentária, as especificidades do trabalho dos atores e assim por diante. Se entendermos que o desapego é um exercício constante na carreira de um figurinista, também entenderemos que as limitações criativas podem ser encaradas, sob outro ângulo, ou seja, como novos estímulos para a criação.

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TBFT: Você começa a pensar no figurino logo que o roteiro está pronto ou você precisa entender e refletir sobre as personagens até chegar a cada peça final?

Paulo V: Digo sempre que eu penso através de imagens e, dessa forma, começo a pensar no figurino no exato instante que tenho qualquer informação sobre o trabalho. Essas imagens iniciais quase sempre são substituídas por outras ou evoluem para um lugar mais seguro na medida em que vou me aprofundando no trabalho. Pesquisas, conceitos, signos e necessidades fazem com que a estética do trabalho seja estruturada e, a partir daí, as idéias vão se afunilando sobre cada ator, sobre cada personagem e sobre cada cena.

TBFT: No teatro há espaço para essa liberdade criativa de experimentar e criar vestimentas diferentes e inusitadas?

Paulo V: Tudo depende do trabalho a ser desenvolvido. Posso dizer que em alguns projetos mais ousados ou em outros trabalhos que exigem que a roupa/figurino seja criada a partir desses conceitos do diferente e do inusitado, haverá espaço para o figurinista soltar sua liberdade criativa e seu domínio técnico sobre a modelagem, composições e relações mais variadas.

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TBFT: Você já assistiu ou leu sobre algum desfile de moda teatral, que transforma a passarela em espetáculo? O que você pensa sobre isso?

Paulo V: Os lançamentos das coleções estão, cada vez mais, abrindo espaço para os desfiles espetáculares. Cenários são pensados e desenvolvidos para a maioria dos desfiles. Da mesma forma, um conceito de luz é elaborado, uma trilha sonora é desenvolvida ao vivo ou mecânicamente. Alguns estilistas, como o mineiro Ronaldo Fraga por exemplo, contam histórias na passarela e, portanto, também temos aí uma tentativa de dramaturgia não verbal impressa nos modelos, nos cortes, nas estampas, nas formas, etc. Portanto vemos os desfiles de moda se apropriando de ferramentas que vieram do teatro. É ótimo tudo isso, qualquer artista pode transitar entre as diferentes linguagens para se comunicar com o seu público ou consumidor dos seus produtos. O único critério que podemos estabelecer para isso é que haja competência para tanto e na maioria das vezes há, isso eu tenho visto na moda que se faz no Brasil ou no exterior. 

TBFT: Você sente, em seu trabalho, uma ligação com a área de moda? O que você pensa sobre a moda atual?

Paulo V: Penso que a moda sempre foi necessária para entendermos todas as sociedades e todas as épocas. Por outro lado, o consumo da moda faz também que a tecnologia do vestuário seja impulsionada pelo deselvolvimento de tecidos e equipamentos fantásticos para os profissionais da área. Eu, como figurinista, pesquisei moda por muito tempo e ainda pesquiso. Graças ao crescimento dos cursos de moda nas universidades brasileiras, temos pessoas pesquisando, escrevendo e publicando sobre moda, sobre semiótica e sobre o corpo.  Apesar de nunca ter encarado um espetáculo como um desfile e um palco como uma passarela (isso seria péssimo para o meu trabalho como figurinista), posso perfeitamente transitar pelo universo da moda, aprender com ele e aproveitar todas as conquistas e as referências que a moda e seus criadores sempre trouxe e ainda trará para o universo do figurino cênico.

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