As consequências do Circo da Moda

Quase um ano depois das polêmicas sobre o Circo da Moda, em março de 2013, o site Business Of Fashion volta a falar sobre esse fenômeno de exibicionismo em frente às câmeras de street style e como isso pode afetar o mundo da Moda. A pergunta que finalizava o post “O Circo da Moda Pegando Fogo” e o vídeo “Take My Picture” era essa: “What happens next?” (O que acontece depois?). Max Berlinger parece ter aceitado o desafio de entender o que está acontecendo no mundo da moda como consequência disso tudo e percebe que o problema pode ser ainda maior do que imaginávamos.

Há muito tempo as ruas são fonte de inspiração para os estilistas e designers e são elas a base inicial das pesquisas de tendências e comportamento. Nelas, encontramos a mistura entre a passarela e o cotidiano das pessoas, entre um conceito estático e as várias possibilidades de interpretação. Nas ruas os verdadeiros artistas são os consumidores que conseguem unir estilo e tendência, ou até mesmo só o estilo já é suficiente. Como diz Max Berlinger, quando Bill Cunningham fotografava nas principais ruas de Nova York ele procurava “pessoas reais, com suas roupas verdadeiras, vivendo suas verdadeiras vidas”.

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Enquanto dentro dos desfiles os estilistas apresentam suas coleções, fora deles, blogueiros, fotógrafos, jornalistas, celebridades e pessoas interessadas em moda circulam pelas ruas com roupas que deveriam expressar seu estilo e individualidade. Deveriam. Mas ao invés disso, as roupas estão sendo escolhidas para chamar atenção das câmeras, como vimos no outro post, certo? A situação chegou a tal ponto que sites como o The Cut conseguem prever as peças que chamam atenção dos fotógrafos e a jornalista Amy Odell cria, de uma maneira cômica e crítica, as 10 regras para ser clicado por fotógrafos de street style.

Agora imagine que as grandes marcas que estão apresentando suas coleções perceberam a repercussão dessas fotografias de street style e queiram usar isso como mais uma ferramenta de marketing a seu favor. Então, as marcas preparam pessoas influentes no meio, como as “estrelas do street style”, para “desfilarem” pelas ruas com seus produtos, para serem fotografados, muitas vezes, dos pés a cabeça com uma única marca. É fácil presentear blogueiros com roupas para eles usarem enquanto vão assistir aos desfiles, levar celebridades para os eventos de moda para chamar atenção também tem sido algo muito recorrente, como no último desfile da Versace, no qual Lady Gaga estava na primeira fila vestindo a coleção que estava sendo apresentada naquele mesmo instante. Assim, além das próprias marcas reforçarem o Circo da Moda, algo que ainda discutiremos em outro momento, elas criam um novo problema para si próprias.

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O que acontece se as ruas forem tomadas por pessoas que querem, na realidade, vender os produtos que vestem? Ou mesmo que não queiram, mas que se vistam com o intuito de serem fotografadas, chamando atenção com roupas que não expressam nada delas mesmas? Caso isso aconteça, e já está acontecendo, o street style deixa de ser autêntico e passa a ser um espelho das passarelas. A inspiração para os próprios estilistas e marcas se desfaz, o olhar único das ruas desaparece e as passarelas vão ser obrigadas a olhar para si mesmas.

Como se já não bastasse que as revistas sejam influenciadas pela publicidade e que os blogs passaram a fazer o mesmo para ganhar dinheiro com seu conteúdo, agora, até mesmo o street style, que era uma ponta de identidade verdadeira no mundo da Moda, está sendo tomado pelos mesmos motivos e se transformando em mais uma construção fictícia. Todos nós precisamos de referências e inspirações para criar. Como seria essa criação se a todo momento ela se refletisse em todos os lugares possíveis e não houvesse mais diferença entre a inovação e sua interpretação? Será que é positivo ver um reflexo das revistas e passarelas nas ruas? Assim como Max Berlinger, acredito que não seria algo proveitoso para a moda, mas sim muito perigoso. A autenticidade é o que cria a moda e faz dela uma forma de expressão, se ela se perde, a moda se perde com ela e passa a ser apenas uma repetição de tecidos, padronagens e silhuetas que nada significam.

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