Entrevista com o Movimento Compro de Quem Faz

O Compro de Quem Faz é um movimento atual e muito relevante em nossa sociedade de consumo desenfreado. A ideia é valorizar artesãos e artistas independentes, perceber a relevância e unicidade do que é feito com as mãos, do que é local e sustentável. Por isso o The Big Fashion Theory fez uma entrevista com esse grupo que ama o que faz e traz uma nova visão de como e o que consumir.

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TBFT. Sendo o Compro de Quem Faz um manifesto a favor de produtores locais e que confeccionam os produtos com as próprias mãos, como o movimento vê as dificuldades que o Brasil impõe aos empreendedores locais através da burocracia e dos impostos? Vocês acreditam que é possível ter sucesso e fazer a diferença mesmo com essas dificuldades?

CDQF: Sabemos que existem barreiras para aqueles que produzem com as próprias mãos, ainda mais diante de um mercado competitivo e saturado, basicamente tomado por produtos baratos e pela produção em massa, mas as coisas estão mudando. Hoje já falamos em Economia Criativa como fonte de renda, um termo que até certo tempo atrás nem passava pela cabeça das pessoas e sentimos que o Brasil também está conseguindo enxergar que temos muito potencial nessa área em questão, com muitos artesãos espalhados pelo país, muitas pessoas criativas que buscam sempre inovar no seu trabalho. Além disso, a maneira de consumir das pessoas está mudando, hoje elas buscam por um consumo mais consciente, único, que o trabalho manual pode proporcionar. Por conta disso, e pelo número de ferramentas disponíveis à esses artistas, acreditamos que é possível sim ter sucesso e fazer a diferença no mercado. As barreiras existem, mas é possível quebrá-las.

TBFT. Para vocês, qual a importância de se valorizar o produto local para o país?

CDQF: A importância está em fortalecer a economia interna e provar que não somos tão dependentes assim dos famosos importados. A valorização do local mostra que também produzimos bons produtos, criativos e de qualidade, a preços justos e quebra o mito de que o importado é mais “legal” do que o nacional.

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TBFT. Existem muitos produtores e artesãos locais que não se preocupam com questões sócio ambientais. Mesmo sem essa consciência, vocês ainda acham mais válido comprar desse produtor do que de grandes corporações? Por quê?

CDQF: As questões sócio ambientais são tão importantes quanto a valorização do trabalho manual e economia local, e elas também se encaixam no que o movimento acredita. Quando falamos em consumo consciente, não falamos somente do consumo desenfreado, mas também em saber o que se consome e a sua procedência. Acreditamos que a maioria dos artesãos que fazem parte dessa nova economia criativa já trabalham com uma preocupação com o meio ambiente, mas caso isso não aconteça em algum momento, o que nós sugerimos e achamos válido é que seja enaltecida a importância da preocupação com essas questões para que a produção torne-se ainda mais responsável.

TBFT. No mês passado o Greenpeace lançou uma campanha chamada “O rei está nu”, na qual denuncia grandes marcas de luxo, como Versace e Louis Vuitton, de utilizarem substâncias químicas perigosas para produzir suas peças. Ou seja, quem tem condições de comprar produtos dessas grifes gasta muito dinheiro com um produto relativamente exclusivo porém, tóxico. No outro extremo, temos lojas de departamento com etiquetas “Made in China” que garantem o menor preço às custas da exploração da mão de obra. De que maneira o Compro de Quem Faz pode ser uma alternativa a esses dois extremos?

CDQF: O CDQF vai contra a ideia de consumo desenfreado e produção em massa. O que oferecemos para a sociedade é uma alternativa a isso tudo, ou seja, você pode comprar produtos diferentes e de qualidade, com preços justos, nascidos do coração de artesãos que amam o que fazem, produzidos no seu bairro, na sua cidade ou no seu país, e ainda se sentir satisfeito como consumidor. Oferecemos à sociedade a experiência única de adquirir um produto que não é igual a nenhum outro, de apoiar a economia local e do país e de ter a consciência limpa quanto à responsabilidade social e ambiental dessa compra.

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TBFT. Agora, sem pensar no sustentável ou no socialmente correto, o produto feito à mão e em menor escala tem um valor agregado diferente do produzido em série e, muitas vezes é mais caro, qual a opinião de vocês sobre isso?

CDQF: Podemos enxergar esse ponto de duas perspectivas diferentes. A primeira, vendo pelo lado econômico, é que os artesãos nao são como as grandes empresas que detém o mercado, ou seja, eles não compram matéria-prima em grande quantidade, o que muitas vezes encarece o processo, e em sua maioria, eles produzem tudo sozinhos. A segunda perspectiva é enxergar tudo isso pelo lado simbólico. Eles não vendem números, eles vendem qualidade e alma, ou seja, é a personalidade, a criatividade, a capacidade, o conhecimento e o tempo deles que vai em cada trabalho. Somando essas duas perspectivas, acreditamos que o fato do encarecimento, ou não, desses produtos, tem muito a ver com o que cada indivíduo acredita e seus valores. É difícil dizer se um produto feito manualmente é caro ou não, pois o valor simbólico agregado à ele não se mede tão facilmente quanto um produto desenvolvido em massa por uma grande empresa. Quando falamos no trabalho manual, falamos em um ser humano por trás do negócio, e não em uma empresa grande e detentora do mercado. Assim como para um artesão, o comprador não é mais um número, é uma pessoa com alma e coração que vai receber aquele produto. Por isso acreditamos que o preço final do produto engloba todos esses valores de relacionamento e troca, que vão muito além de só o valor da matéria-prima.

TBFT. Acho muito interessante a forma como vocês lembram do feito à mão como algo que foi feito com amor. Vocês acreditam que esses produtos trazem esse sentimento com eles para o nosso dia a dia? Vocês acham que isso modifica de alguma forma a ideia de consumo dos dias atuais?

CDQF: Acreditamos sim que esses produtos tragam consigo um pouquinho do amor do artesão que o produziu, afinal, desde a escolha da matéria-prima, até a produção da peça, e a entrega para o cliente, são momentos que esse artesão dedica do seu tempo para desenvolver uma criação sua, e que outra pessoa deseja ter. Além do sentimento, essas peças são carregadas de história de vida, cultura, valores e personalidade. Isso modifica a ideia de consumo atualmente já que cada vez buscamos pela proximidade em nossas experiências de compra. Queremos nos sentir importantes para alguém, e queremos ter pessoas importantes em nossas vidas. As peças artesanais proporcionam essa proximidade e esse sentimento de unicidade, pois são produzidas em uma escala bem menor do que o mercado atual e uma peça nunca será igual à outra.

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2 thoughts on “Entrevista com o Movimento Compro de Quem Faz

    • Obrigada Kika! É muito bacana encontrar um movimento assim, que dá valor ao trabalho manual. Qualquer dia podemos colocar as suas criações aqui no blog também né 😉 Beijos!

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