Ampliamento do conceito de gênero – Parte 1

No último ano da graduação em Design de Moda, há mais de 3 anos, eu e minha turma estávamos nos preparando para nos formar, desenhando nossas coleções e criando o desfile Octa Fashion da UDESC. No meio de tantas formas, cores e tecidos, alguns rótulos eram inevitáveis: coleção masculina, feminina, infantil, conceitual, comercial e assim por diante.

Mas uma das alunas que eu mais admirava (e continuo admirando) começou a esboçar uma coleção sem gênero. Ela não se formou naquele ano de 2012, pois foi estudar na Europa, o que, com certeza, complementou suas ideias e deu a certeza de que ela estava no caminho certo. Quando voltou, retomou a coleção e fez um dos mais belos desfiles daquele ano no Octa Fashion 2014, com o nome de “Voyeur Absoluto“, inspirado na obra do fotógrafo cego Evgen Bavcar em um olhar muito próprio sobre a obra de um artista que tem uma grande lição de criatividade e liberdade.

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Uma liberdade que vai além da liberdade de expressão, mas que tem a ver com um corpo que parecia aprisionado pela falta da visão e que se liberta por meio da criação e imaginação. Assim como a coleção de Juliane Biz, que liberta o corpo de formas, tecidos, cores e padrões pré-definidos, estereotipados e que aprisionam identidades em opções fechadas de uma realidade múltipla e diversificada.

Peças masculinas transportadas para o guarda-roupa feminino são comuns e a maioria das peças já está incorporada no vestuário das mulheres. Além disso, vez ou outra alguns estilistas buscam no guarda-roupa feminino inspiração para desfiles masculinos, com direito a saias, croppeds, florais e rendas, com alguma dificuldade de aceitação do público. Mas a questão do conceito de gênero sendo ampliado, não apenas na moda, vai muito além de uma simples troca de peças, formas e materiais.

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Em 2014 o site Ponto Eletrônico publicou um artigo sobre o assunto que explica muito bem essa ideia. “Não se trata mais da apropriação do vestuário masculino pelo feminino ou vice-versa, mas sim de uma moda neutra, liberta de estereótipos.” Todas as mudanças que estão ocorrendo em relação ao gênero facilitam e ampliam essa discussão, a sexualidade é um conceito que está sendo revisto e reinterpretado de modo que nomenclaturas surgiram para definir formas diferentes de entendê-la e vivenciá-la.

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Surge, assim, um novo público que não espera uma moda dividida entre masculino e feminino, mas uma moda que compreende que essas fronteiras não existem mais, fortalecendo um processo identitário que não depende desses rótulos. Produtos e roupas pensadas para esse público deixam de ter um caráter apenas básico e passam a ter uma identidade própria, designs variados superam as limitações de gênero. A mudança gradativa fica evidente em alguns exemplos como o da Selfridges, que propôs em março desse ano uma experiência de compra sem divisão de seções, o Agender.

Esse novo formato pelo qual a moda está se desenhando reflete os avanços da sociedade com relação aos diferentes gêneros. Os preconceitos ainda são muitos e muita coisa precisa mudar para uma igualdade pautada no respeito e aceitação da diversidade, mas é inegável que as mudanças estão ocorrendo e o espaço da discriminação está diminuindo. Mas vamos guardar essa discussão para a Parte 2 desse assunto.

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